Capítulo 5
Pan 2023 e Expectativas Paris 2024
O ano de 2023 tem sido energizante para o Brasil. Os Jogos Pan-Americanos aconteceram esse ano, no Chile, trazendo recordes e conquistas para o país. Através do Pan e de outras competições, muitos atletas buscam classificação para as Olimpíadas de Paris 2024.
Pan 2023: Brasil supera seu recorde anterior
Os Jogos Pan-Americanos de 2023 tiveram seu fim no dia 5 de novembro e trouxeram ao Brasil 205 medalhas: a melhor atuação do país na competição. A meta inicial do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), que era ultrapassar 200 medalhas, foi alcançada com sucesso. Foram 66 ouros, 73 pratas e 66 bronzes, superando a histórica campanha feita em Lima, no Pan de 2019, quando o Brasil conquistou 169 medalhas. Na classificação final, o país ficou atrás apenas dos Estados Unidos, que levaram 286 medalhas. O Brasil só havia conseguido a segunda colocação anteriormente no Pan de São Paulo 1963 e em Lima 2019, na edição anterior.
A delegação brasileira enviada a Santiago também foi a maior da história do país em competições internacionais, com 469 atletas em 54 modalidades. No quadro total de medalhas, 95 foram conquistadas por mulheres, 92 por homens e 18 em provas mistas. Dos 66 ouros conquistados, as mulheres trouxeram 33, os homens 30 e três foram conquistados em provas mistas. A maior medalhista da delegação foi Bárbara Domingos, da Ginástica Rítmica, com cinco pódios no total. Para o diretor de esportes do COB, Ney Wilson, as mulheres têm feito uma diferença para o Brasil em competições internacionais, com espaço para ampliação.
Do total de medalhas conquistadas, 184 (89,75%) vieram através de atletas com a participação de ao menos um atleta beneficiado pela Bolsa Atleta, do Governo Federal. Tal fato apenas reforça a importância do investimento público na carreira dos atletas, que também tem espaço para ampliação.
Além dos recordes batidos na competição, os atletas brasileiros também conquistaram 40 vagas para as Olimpíadas de Paris 2024, totalizando 143 vagas já garantidas para o país.
Destaques
O esporte no qual a delegação brasileira mais se destacou no Pan 2023 foi a ginástica rítmica, com ouro em todas as categorias. Além dos oito ouros, o país também conquistou quatro pratas e um bronze, totalizando 13 medalhas na modalidade.

Da esq. para a dir: Bárbara Galvão, Gabriela Coradine, Victoria Borges, Geovanna Oliveira e Nicole Pircio conquistaram o ouro na ginástica rítmica em conjunto. Foto: Miriam Jeske/COB
Um dos destaques da ginástica rítmica foi Maria Eduarda Alexandre, que conquistou quatro medalhas: ouro no arco e maças, prata na fita e bronze no individual geral. Nas maçãs, trouxe dobradinha para o Brasil, já que o bronze ficou com Bárbara Domingues.
Outro destaque foi Bia Ferreira, que venceu a colombiana Angie Valdes na final do boxe até 60kg. Bia anunciou que está no último ciclo e vai em busca do ouro em Paris, o que traz ainda mais emoção para essa conquista.
Na esgrima, o Brasil conquistou uma medalha de ouro inédita. A equipe feminina venceu o Canadá, trazendo o primeiro lugar na esgrima feminina por equipes.

Da esq. para a dir: Bia Bulcão, Marcos Cardoso, Victória Vizeu, Nathalie Moellhausen, Amanda Netto e Régis Trois. Foto: Marina Ziehe/COB
Laura Pigossi também fez história em Santiago. A tenista venceu a argentina Lourdes Carle e levou a medalha de ouro no simples feminino, quebrando um jejum de 36 anos. A última vitória feminina brasileira na categoria havia sido em 1987 com a ex-tenista Gisele Miró, no Pan de de Indianápolis. A vitória assegurou à Laura a vaga olímpica para 2024.
A conquista foi a segunda medalha de ouro da tenista na competição, que conquistou também o primeiro lugar na categoria de duplas, ao lado da atleta Luisa Stefani.

Laura Pigossi e Luisa Stefani conquistaram o ouro no tênis. .Foto: Gaspar Nóbrega/COB
Já o maior medalhista da natação brasileira no Pan 2023 foi Guilherme Costa, com quatro ouros. O atleta, conhecido como “Cachorrão” conquistou o primeiro lugar nos 400m, 800m e 1500m e também no revezamento 4x200m, assegurando sua vaga olímpica.

Guilherme Costa ficou com o ouro nos 400m livre masculino no Pan 2023. Foto: Satiro Sodré/CBDA
A ginasta Rebeca Andrade também foi destaque na competição, ao conquistar quatro medalhas: prata individual e por equipes nas barras assimétricas, ouro no salto e ouro na trave. Sendo o último ao lado de Flávia Saraiva, que ficou com a prata, as brasileiras trouxeram uma dobradinha para o Brasil.

Rebeca Andrade ficou com quatro medalhas na Pan 2023. Foto: Rafael Bello/COB
Preparação e expectativas para Paris 2024
As Olimpíadas e Paralimpíadas de Paris 2024 estão chegando e tanto a cidade como os atletas já se preparam para a competição.
A candidatura francesa começou em 2015 e o país foi escolhido em Lima, em 2017. Na disputa inicial estavam Budapeste, Hamburgo e Roma, que posteriormente se retiraram, deixando apenas Paris e Los Angeles. Com a escolha, Paris se juntará ao grupo seleto de cidades que já sediaram três Jogos Olímpicos, juntamente com Londres e Los Angeles. As últimas duas edições dos Jogos feita na cidade foram em 1900 e 1924.
Em julho de 2023, a cidade francesa já havia começado os testes e ensaios operacionais nos locais que sediarão as competições, que ocorrerão do dia 2 de julho de 2024 ao dia 11 de agosto de 2024 (Olimpíadas) e do dia 28 de agosto de 2024 ao dia 8 se setembro de 2024 (Paralimpíadas). A ideia dos testes é treinar as equipes técnicas e verificar processos e recursos, para que tudo ocorra da melhor forma possível durante os jogos, simulando questões específicas de cada esporte. O país também se preocupa com a questão ambiental e financeira, visando a redução de danos e economia de recursos.
Em meio às preparações da cidade francesa, atletas preparam-se no mundo todo, treinando e participando de campeonatos nacionais e internacionais, alguns ainda em busca de uma vaga para os próximos Jogos Olímpicos.
João da Barreira, que se naturalizou português e agora representará Portugal nas Olimpíadas, afirma que o trabalho agora é para focar em pequenos detalhes que possam fazer a diferença no resultado final: “O grosso a gente já sabe fazer, não vai ter grandes mudanças, mas agora a gente está buscando pequenas coisas que possam vir a dar um retorno para nós. Possam dar um horizonte melhor para aquilo que a gente quer fazer…Então eu estou empolgado”, afirma.
O atleta participará em janeiro do próximo ano de competições em pista coberta e em março em pistas ao ar livre, buscando a classificação que, segundo ele, será a ‘’cereja do bolo’’ para sua carreira.
Já Ygor Coelho, atleta carioca de Badminton, venceu o guatemalteco Kevin Gordon no Mundial de Badminton, que aconteceu na Guatemala, em setembro de 2023, tornando-se o número dois das Américas. Durante o Pan 2023, Ygor não chegou ao pódio e ainda tentará a classificação para Paris 2024. Hoje, ele está na posição 47 no mundo e tem o objetivo de ficar entre os 40 melhores antes das Olimpíadas.
Caso consiga classificar, Ygor tem o objetivo de avançar à fase de grupos e conquistar a medalha olímpica. “O que aconteceu, a pandemia, minha cirurgia e tudo mais, está servindo de motivação para chegar lá e provar que eu sou capaz”, afirma o atleta. Ygor realizou suas cirurgias no quadril em 2020 e perdeu 12kg em sua recuperação, para voltar ao seu peso ideal.
Já para o treinador de atletismo paralímpico, Daniel Biscola, afirma que a preparação para os Jogos de 2024 estão sendo um pouco mais difíceis, visto que, devido a pandemia do Covid-19, os Jogos de Tóquio, que seriam em 2020, ocorreram em 2021, diminuindo o tempo de ciclo entre uma Olimpíada e outra.
“Tem sido um desafio muito grande porque a gente nem competiu quase 21, que já acabou, e a gente já está há menos de um ano de ir pra Paris e isso fez uma diferença grande para a preparação.”
Bia Bulcão, atleta de esgrima, afirma que está no meio da corrida olímpica e que a disputa está acirradíssima, com várias possibilidades de classificação.
“Toda competição é muito importante, é difícil estar sempre cem por cento, você tem que priorizar algumas, estar sempre atento para cuidar da saúde, da recuperação….Eu estou com uma competição atrás da outra agora [...] Estou correndo e treinando, vamos ver no que vai dar.”
Para o jornalista Guilherme Costa, o Brasil caminha para bater seu recorde de medalhas, que atingiu 21 em Tóquio 2020, mas dificilmente baterá seu recorde de ouros, tendo atingido sete ouros nas duas últimas olimpíadas.
“Acho que o Brasil vai para quatro ou cinco ouros. Não vejo o Brasil com sete ouros [...] Vou torcer para ter sete ouros, mas acho que não batemos o recorde.”
Segundo ele, o Brasil também precisa tomar cuidado com suas estrelas - seus atletas principais, que tiveram um ano difícil em 2023. Ele citou Bruno Fratus, Mayra Aguiar, Isaquias Queiroz, Alison dos Santos, Ana Marcela e Arthur Zanetti, atletas brasileiros que estão lesionados, se recuperando ou recém-recuperados de lesões.
“Muitos dos nossos principais atletas estão ou machucados ou voltando de lesão, então é um ponto de atenção gigantesco, porque o Brasil precisa desses atletas bem para bater esse recorde.”
Para o diretor de comunicação do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Paulo Conde, a meta é evoluir sempre e sem deixar de considerar a dificuldade, visto que os outros países têm também os mesmos objetivos.
“Cada medalha a mais somada no quadro requer muito esforço, muita dedicação, que tudo dê certo”, afirma.
Segundo ele, é necessário contar também com ocasiões imprevisíveis, como possível lesionamento de atletas, que pode impactar o quadro final de medalhas.
“Se tiver sido pior do que Tóquio, não diria que é ruim, mas a gente lutou para melhorar.’’ E complementa: ‘’Você depende de um monte de fatores, não é uma ciência tão exata. A Olimpíada é muito disputada né, os países ali investem muito dinheiro. A competição é realmente muito dura. Então vamos ver. Estamos há dez meses dessa resposta.”
Paulo Conde, diretor de comunicação do COB, fala sobre a meta de medalhas do Comitê para 2024. Vídeo: Gabriel Alexandre e Gabriela Francia
Futuro Olímpico
Diante disso tudo, nota-se que o Brasil tornou-se uma potência quando se trata de Jogos Pan-americanos. Com o segundo lugar nas edições de 2019 e 2023 e com recorde de medalhas em relação às edições anteriores, o país se instaurou de vez como a segunda maior potência do continente americano, desbancando Cuba, México e Canadá e ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Nos Jogos Olímpicos, apesar disso, o retrato é um pouco diferente. Mesmo com a melhora, o Time Brasil ainda não atingiu o objetivo de figurar entre os dez mais bem colocados no quadro de medalhas e a expectativa para os próximos ciclos é que o Brasil permaneça entre o 12º e 16º lugar, ainda não atingindo a meta, mas se consolidando como um país emergente.
No cenário Paralímpico, o Brasil também tem feito um bom trabalho. Neste caso, se consolidando cada vez mais como a maior potência do continente, já que desde o Parapan de 2007, no Rio de Janeiro, o país não sabe o que é ficar fora da primeira colocação no quadro de medalhas. Agora, no Parapan de Santiago 2023, a expectativa é que mais recordes sejam batidos. Quando se trata de Jogos Paralímpicos, o crescimento é notável.
Apesar de não alcançar o top 5 no quadro de medalhas, objetivo traçado desde as Paralimpíadas do Rio de Janeiro, o país bateu seu próprio recorde de medalhas jogando em casa (72), e repetiu o feito em 2020, desta vez com mais ouros, já que em 2016 foram 14 medalhas douradas contra 22 nos Jogos de Tóquio, uma melhora que fez o país pular do oitavo para o sétimo lugar de um ciclo para o outro. A expectativa agora é de que o país possa bater ainda mais o recorde de medalhas das últimas duas competições. De acordo com o presidente do Comitê Paralímpico Internacional (CPI), o brasileiro Andrew Parsons, os recentes Mundiais de Atletismo e Natação, em que o Brasil conquistou 2º lugar com 47 medalhas e o 4º lugar com 46 medalhas, respectivamente, são grandes exemplos de que o Brasil “fará a maior campanha da história” em Paris.
Com tudo isso, pode-se dizer que os investimentos para as Olimpíadas Rio 2016 ajudaram o Brasil a se tornar uma potência dentro do continente americano. Já no cenário mundial, o país está estabelecido entre os países emergentes, mas com poucas perspectivas de que entre para as grandes potências nos próximos anos. Afinal, muitos dos grandes atletas brasileiros se beneficiaram das preparações para os Jogos do Rio. Para chegar a um nível maior dentro do quadro de medalhas, será necessário que o país amplie o olhar para o cenário olímpico como um todo, com mais oportunidades, investimentos públicos com incentivos a atletas de base e, acima de tudo, com a construção de uma cultura esportiva para que mais esportes consigam se autossustentar com público, patrocínios e atletas de alto nível.
No cenário Paralímpico, o futuro parece promissor. O Brasil está entre os principais países e não dá qualquer sinal de que sairá deste posto. Muito pelo contrário. De acordo com o vice-presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro, Yohansson Ferreira, o CPB trabalha em conjunto com atletas de base, por meio de campeonatos estudantis e de iniciação, com oportunidades para que eles treinem em um dos principais Centros de Treinamento Paralímpico do mundo, o CTP, localizado em São Paulo (SP). É interessante notar que o Comitê Olímpico Brasileiro também tem projetos com este intuito, ainda que não seja sua prioridade, já que busca trabalhar prioritariamente com atletas de alto rendimento, deixando assim, a iniciação esportiva órfã de qualquer instituição. O tratamento, como é notável, impacta diretamente nas expectativas das duas modalidades, não só para o presente, mas também para o futuro do Brasil nos Jogos Olímpicos.

