Capítulo 3
Pós-Rio 2016 e Cultura Esportiva no Brasil
Muito mais do que vencer uma medalha, as Olimpíadas ajudam a escrever grandes histórias. Você pode não saber como os esportes funcionam, você pode não acompanhar os quadros de medalhas, mas com certeza, conhecerá alguma história de superação em ano de Olimpíada. Superar faz parte do esporte e da vida, é claro, mas nem tudo deve ser romantizado e, principalmente, esquecido depois de cada ciclo olímpico. Afinal, uma coisa é certa: nem todos sobem ao pódio, mas todos têm uma história.
A realização de um evento como os Jogos Olímpicos ou Copa do Mundo, marca um ponto de virada – ou deveria – em todas as cidades, estados, províncias e países. É a partir dela, que um amplo projeto esportivo pode mudar a cultura de um povo. Mas será que isso aconteceu no Brasil?
Tendo em vista o quadro de medalhas, o Brasil, de fato, melhorou. Ainda que não o suficiente para ser uma potência olímpica e ainda distante do planejado para os Jogos de 2016. A ideia, de início, era que o Time Brasil chegasse entre os dez primeiros colocados jogando em casa. E mesmo que tenha melhorado em relação aos Jogos anteriores, o objetivo não foi atingido em 2016, tampouco em 2020. Agora, o Brasil vive uma fase “entre-safras”, isso porque atletas históricos que ajudaram a elevar e levar o esporte brasileiro para o mundo, estão, provavelmente, nos seus últimos ciclos olímpicos. Guilherme Costa, jornalista do Grupo Globo, que cobre Jogos Olímpicos, comenta esse cenário:
“A gente fez uma reportagem que o investimento público no esporte olímpico de alto rendimento do Brasil caiu 47% do ciclo de 2016 para o ciclo de 2020. Caiu, mas continuou bom o investimento. Então, os principais atletas seguiram o investimento na esteira do que eles tiveram em 2016. Essa esteira está acabando. Em 2024 ainda tem alguns atletas que “nasceram” para as Olimpíadas de 2016, mas esses atletas estão se aposentando. A gente tem os principais atletas do Brasil, isso até é um pouco temeroso, para a Olimpíada de Paris, mais velhos, são acima de 30 anos ou perto de 30 anos. O Isaquias da Canoagem, a Mayra do Judô, o Bruno Fratus da Natação, a Ana Marcela das Águas Abertas, o Arthur Zanetti da ginástica, o Arthur Nory da ginástica, todos esses acima de 30 anos… já estão provavelmente no último ciclo da carreira, o que vai acontecer com essas modalidades depois que eles se aposentarem?”
Guilherme Costa comenta sobre a entrada do surfe e do skate nas Olimpíadas e o aproveitamento da esteira de investimentos de 2016. Vídeo: Gabriel Alexandre e Gabriela Francia
De fato, não dá para saber o que vai acontecer com essas modalidades depois que eles se aposentarem. Apesar disso, ainda há tempo de celebrá-los, mesmo que não por muitos ciclos.
Pós-Pan-Americano Lima 2019 e Olimpíadas Rio 2016
Com Campeonatos Mundiais e o Pan-Americano de Lima em vista, o Brasil realizou um ciclo olímpico positivo, ainda na esteira dos investimentos realizados para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, como dito por Guilherme Costa.
No Pan de Lima, no Peru, em 2019, o Brasil conquistou as melhores campanhas de sua história. Entre as modalidades Olímpicas, o Brasil terminou com 171 medalhas, sendo 55 de ouro, 45 de prata, 71 de bronze e um segundo lugar no quadro de medalhas, tornando a melhor colocação do Brasil na história do Pan desde a edição de 1963, realizada em São Paulo. Na ocasião, o Time Brasil também figurou a segunda colocação no quadro geral.
Entre as modalidades parapan-americanas, O Brasil conquistou mais recordes e a maior campanha da história da competição disputada oficialmente desde 1999, com 308 medalhas, sendo 124 de ouro, 99 de prata, 85 de bronze e uma larga vantagem para o segundo colocado Estados Unidos, que terminou com 185 medalhas, sendo 58 de ouro.
Já nos torneios mundiais, o Brasil Olímpico fechou o ciclo pré-Tóquio com 21 medalhas, sendo sete vindas do surfe e do skate, estreantes na competição. Entre os atletas paralímpicos, o Time Brasil fez também um ótimo ciclo, garantindo assim a maior delegação de sua história em torneios realizados no exterior com 260 atletas de 21 das 23 modalidades, incluindo as estreantes taekwondo e badminton. Um ponto importante, é que destes 260 atletas, haviam muitos jovens e estreantes na competição, ponto destacado pelo então diretor técnico do Comitê Paralímpico Brasileiro, Alberto Martins, à BBC Brasil: “Também temos uma participação maior de jovens, e essa renovação é extremamente importante porque já estamos pensando em Paris 2024 e em Los Angeles 2028”, diz Martins, que além da renovação, ressaltou a importância de continuar figurando o top-10 do quadro de medalhas nos Jogos Paralímpicos de Tóquio.
Para Bia Bulcão, atleta de esgrima, competir na Rio 2016 foi uma das maiores experiências da sua vida. Segundo ela, o grande investimento injetado nos atletas para os Jogos foi bem aproveitado, porém não se manteve após a competição, como é o caso da esgrima, por exemplo. A atleta continuou buscando investimento por conta própria após os Jogos, o que a permite, hoje, ter até mais investimento do que tinha antes. Após a Rio 2016, muitos esgrimistas conseguiram oportunidades de treinar ou seguir outras carreira dentro do esporte fora do Brasil, um dos legados da competição para o esporte.
“Eu vi muitos dos meus companheiros de equipe tendo sucesso nas carreiras que eles seguiram, às vezes com oportunidade de ser treinador em outro país, então aconteceu”, afirma Bia.
No cenário paralímpico, os Jogos Rio 2016 também foram essenciais para sua evolução. para Leonardo Tomasello, treinador de natação paralímpica, um dos grandes legados foi o Centro de Treinamento Paralímpico, inaugurado em maio de 2016, na cidade de São Paulo.
“O Centro de Treinamento aqui da Imigrantes, em São Paulo, é um legado dos Jogos e talvez o legado que mais esteja funcionando […] Ele é grande, recebe quinze modalidades e ele tem uma rotatividade de competições, de treinamento e de ações muito grande.”
Leonardo Tomasello, treinador de natação paralímpica. Foto: Leonardo Tomasello/@coachtomasello
Centro de Treinamento Paralímpico, localizado em São Paulo - SP. Fotos: Gabriel Alexandre e Gabriela Francia
Segundo o treinador, com a Rio 2016, a estrutura administrativa do Comitê Paralímpico concentrou-se em São Paulo e alguns dos principais atletas do Brasil treinam do local. O espaço realmente oferece uma estrutura muito boa, com piscinas, pistas e quadras iguais às usadas nos Jogos Olímpicos.
Para Tomasello, o investimento público, que cresceu na época da Rio 2016 – já que o país sede sempre investe bastante para ter um resultado esportivo melhor – também não foi reduzido após os Jogos e pode até ter aumentado, visto que a preparação para Tóquio 2020 foi melhor que a do Rio e a de Paris 2024 também está sendo.
“Por outro lado, o que cai é o investimento privado. O privado, pelo que observo, é muito por ciclos. Vai chegando próximo aos jogos ele aumenta, quando terminam, ele cai, aí vai chegando os Jogos e aumenta de novo”, afirma o treinador.
Ygor Coelho, atleta de Badminton, acredita que após a Rio 2016 surgiram mais clubes e que o Brasil tem uma boa geração, que soube aproveitar a esteira de investimento de 2016 e evoluiu bastante. Porém, ainda que conte com mais atletas, o país não tem os mesmos resultados de antes. No badminton, o Brasil era a terceira maior potência das Américas, atrás apenas do Canadá e dos Estados Unidos. Hoje, o país está perdendo a frente para o Peru, que vem com uma base mais forte.
O esporte também conta com dois Centros de Treinamento principais, um em Americana (SP) e outro em Teresina (PI). Para Ygor, isso é um ponto negativo, visto que os gastos gerais e com manutenção ficam divididos. Entretanto, mesmo com algumas dificuldades, a Rio 2016 trouxe mais visibilidade ao esporte.
“Acho que tem mais pessoas falando sobre badminton graças à Rio 2016. As redes sociais são um grande passo, a gente está na era da tecnologia, e ela faz com que mais e mais pessoas se interessem pelo esporte. É um esporte que cada vez mais cresce, tem mais gente, mais pessoas […] E o resultado acho que vem com o tempo, mas também a gente tem que construir.”
Ygor Coelho fala sobre os impactos da Rio 2016 para o badminton brasileiro. Vídeo: Gabriel Alexandre e Gabriela Francia
Guilherme Costa acredita que o legado da Rio 2016 foi positivo, visto o aumento de medalhas em Tóquio 2020 e um possível aumento em Paris 2024. Porém, o Brasil saiu com muitos problemas no esporte de base. Além disso, o legado para a cidade do Rio de Janeiro é baixo.
“A arenas são pouquíssimo utilizadas, o Parque Olímpico fica em si fica vazio o tempo inteiro, tem a quadra de tênis que foi usada duas vezes depois da olimpíada, uma pro vôlei de praia outra para o futebol de praia [...] muita coisa do legado da cidade do Rio de Janeiro foi ruim, mas pro esporte brasileiro, em termo de resultados, o Brasil está sabendo aproveitar, não sei até quando.”
Em 2022, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, anunciou o início das obras de desmontagem da Arena do Futuro, no Parque Olímpico. Os materiais da arena seriam usados para a construção de quatro novas escolas municipais que, segundo o prefeito, trariam mais benefício à população. O valor das obras foi estimado em mais de R$36 milhões, com um prazo de 15 meses para conclusão.
Pandemia e o Adiamento das Olimpíadas Tóquio 2020
Com datas marcadas para entre os dias 24 de julho e 9 de agosto, os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 enfrentaram um triste e raro acontecimento: a pandemia do novo Coronavírus. A doença que matou, debilitou e amedrontou milhões de pessoas em todo o mundo fez com que a edição de Tóquio 2020 dos Jogos Olímpicos fosse a primeira da história da Era Moderna a ser adiada, isso porque as edições de 1916, 1940 e 1944 foram canceladas – e não adiadas – por conta da Primeira e Segunda Guerra Mundial.
Foi então que, pelas palavras do presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), Thomas Bach, junto ao primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe e com informações e recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), que no dia 24 de março de 2020, foi publicada a Nota Oficial de Adiamento dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 para o verão seguinte, em 2021. A decisão surgiu após uma ligação telefônica entre Abe e Bach, junto ao governador de Tóquio, Yuriko Koike e do líder da organização dos Jogos, Yoshiro Mori. Com o adiamento, os jogos foram realizados entre os dias 23 de julho e 8 de agosto de 2021, sem a presença do público nas quadras, ginásios e arenas.
Vale lembrar que o Comitê Olímpico Internacional foi inicialmente contra o adiamento dos Jogos Olímpicos. Thomas Bach, inclusive, disse após um encontro do conselho executivo do COI na Suíça, que “nem a palavra cancelamento tampouco a palavra adiamento foram mencionadas” em relação à realização dos Jogos Olímpicos. Apesar disso, com os números de casos crescendo ao redor do mundo e com a pressão de federações internacionais – incluindo o Comitê Olímpico Brasileiro (COB), que publicou uma Nota Oficial pedindo o adiamento dos jogos para 2021 – a situação ficou insustentável.
Foto: Reuters/K. Pfaffenbach
Covid-19, Governo Federal, COB e o Brasil nas Olimpíadas de 2020
Com o adiamento dos Jogos Olímpicos para 2021, algumas ações tiveram de ser tomadas em relação à preparação e saúde das delegações, porque afinal de contas, nem só de histórico vive um atleta.
À época, em 24 de março de 2020, as Secretarias de Saúde dos estados brasileiros haviam registrado um total de 2.271 casos confirmados, além de 47 mortes, desde o dia 26 de fevereiro, data do primeiro registro de um infectado no país. No mundo, os números chegaram a 382 mil casos, com mais de 16 mil mortes.
As vacinas, até então, pareciam distantes demais para tamanha necessidade e o Governo Federal, presidido na época por Jair Messias Bolsonaro (sem partido), sequer dava esperanças aos brasileiros de que melhoraria as condições no Brasil. O então presidente, inclusive, chegou a criticar medidas que evitassem a contaminação da população, alegando que tais ações prejudicariam a economia do país e afirmou que via uma certa “histeria” em muitas dessas medidas. Sem o Ministério do Esporte, transformado em Secretaria Especial durante o então governo, e com os casos crescendo no mundo todo, o Comitê Olímpico do Brasil foi na contramão do que dizia o Governo Federal e anunciou uma medida diferente: levar mais de 200 atletas para retomar os treinamentos no Rio Maior Sports Centre, em Portugal. Além deste Centro, o Time Brasil usufruiu de outras três subsedes: Cascais (vela), Coimbra (judô) e Sangalhos (ginástica artística e rítmica).
A medida, de fato, parece ter sido efetiva, já que poucos casos de Covid-19 foram registrados entre profissionais isolados e os resultados nos Jogos Olímpicos de Tóquio foram melhores que os do Rio de Janeiro, em 2016. No quadro olímpico, um recorde: 21 medalhas, sendo 7 de ouro, 6 de prata e 8 de bronze, além da melhor colocação da história, com o 12º lugar. Nos Jogos Paralímpicos de Tóquio, mais números expressivos: 72 medalhas, igualando o número dos Jogos do Rio, mas desta vez, com 22 ouros – oito a mais em relação aos Jogos em casa – e melhor colocação da história da competição, com o 7° lugar.
Para Leonardo Tomasello, treinador da Seleção Brasileira Paralímpica de Natação, a manutenção do Bolsa Pódio durante o período de pandemia foi um diferencial notório entre seus atletas. “O programa Bolsa Pódio foi mantido mesmo na pandemia, então possibilitou que os atletas fossem treinar. E eu tive atletas que não foram, que não tiveram condições de ir e o nível de desempenho é muito diferente, muito diferente de quem foi e de quem não foi.”
Além dele, o jornalista Guilherme Costa destaca a importância dos treinos em Portugal para o sucesso do Brasil em Tóquio. “Um dos grandes motivos que o Brasil conseguiu bater o recorde de medalhas na Olimpíada de Tóquio foi que durante a pandemia, quando não tinha vacina, o COB fez um trabalho muito bom. O COB mandou mais de 200 atletas para treinar em Portugal, onde os casos de Covid eram bem mais baixos [...] numa cidade que tinha cinco casos de Covid por mês, então os atletas não pegaram o Covid, e tinham toda uma infraestrutura de treinamento”. Guilherme também ressalta que os atletas brasileiros chegaram mais bem preparados por conta da volta aos treinos durante o período de quarentena. “Foram mais de 200 atletas que conseguiram treinar durante 2020, porque o COB fez isso, porque aqui no Brasil estava aquele abre-fecha, às vezes abre, às vezes fecha, aí abre, pega o Covid, volta, e tal. Então os atletas chegaram preparados. Parecia que não teve pandemia para os atletas brasileiros da Olimpíada, isso foi muito bom”, afirma. No entanto, atletas que tiveram colocações mais baixas, não obtiveram a mesma ajuda.
Cultura Esportiva no Brasil
A melhora do Brasil nos últimos dois quadros de medalhas nos Jogos Olímpicos é notável, principalmente se compararmos ao cenário até o fim dos anos 1990. Isso porque, dos Jogos Olímpicos de Antuérpia 1920 a Atlanta 1996, o Brasil havia conquistado apenas 54 medalhas, sendo 12 de ouro. De lá para cá, mais precisamente de Sydney 2000 a Tóquio 2020, o Brasil conquistou 96 medalhas, sendo 25 de ouro. Quase o dobro em relação ao período anterior.
Nos Jogos Paralímpicos, a melhora também é bastante notável, principalmente de Pequim 2008 a Tóquio 2020, quando o Brasil entrou de vez para o top 10 no quadro de medalhas e agora figura entre as maiores potências do esporte paralímpico mundial. Da estreia do Brasil nos Jogos Paralímpicos em Heidelberg 1972 a Atlanta 1996, o Brasil havia conquistado 84 medalhas, sendo 16 de ouro. De Sydney 2000 a Tóquio 2020, o número chega a 289 medalhas, sendo 93 de ouro.
Os números, por si só, são excelentes. Uma clara evidência de que os atletas brasileiros estão representando bem e cada vez melhor o país. Mas será que esses números refletem na cultura esportiva do Brasil e da população? Para Paulo Conde, diretor de comunicação do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), este é o seu maior desafio. “A ideia é realmente que os Jogos Olímpicos, o esporte olímpico, as modalidades olímpicas, estejam disponíveis para as pessoas quase que diariamente [...] Outro objetivo grandioso é furar a bolha, né? Porque a gente talvez já atinja o fã de esporte olímpico, mas quer atingir mais pessoas que de repente vão ver uma modalidade e falar ‘Pô, isso aqui é bacana, eu não conhecia’ [...] O trabalho é muito voltado para isso também, com parcerias, como o caso da CazéTV, a gente geralmente consegue atingir públicos que não atingiria organicamente”, explica.
Paulo Conde fala sobre a parceria do COB com veículos de transmissão. Vídeo: Gabriela Alexandre e Gabriel Alexandre
Atingir públicos fora da bolha Olímpica é algo que as Olimpíadas de 2016 parece ter trazido, pelo menos no sentido de apresentar outros esportes. Para Leonardo Tomasello, as Paralimpíadas do Rio de Janeiro foram ótimas para o esporte paralímpico no Brasil. “Poucas pessoas conheciam, talvez natação, atletismo um pouquinho mais, mas as outras modalidades… goalball, futebol de cegos, o vôlei, o rugby, o basquete em cadeira de rodas, enfim, as outras modalidades tiveram uma divulgação, uma mídia muito grande. E nós percebemos muito isso durante os jogos porque o Parque Olímpico estava todo dia cheio, todo dia lotado. Sempre lotaram em todas as modalidades, então foi muito legal. E isso perpetuou para o ciclo de Tóquio e segue agora para Paris [...] Esse espaço que se conquistou na mídia e, por consequência, no conhecimento das pessoas, se deve muito, muito mesmo aos Jogos do Rio”, comenta.
Além dele, Bia Bulcão revela que a esgrima também se beneficiou da exposição dos Jogos Olímpicos no Brasil. “Hoje eu vejo mais possibilidades de cursos para profissionais de educação física e um maior interesse pessoal. Acho que depois da Olimpíada a galera também já sabe o que é [esgrima], porque antes era ‘ah, aquele esporte com a espada’. Não, já tem uma noção maior do que é, uma cultura maior. Então, eu acho que o caminho é despertar interesse, criar mais profissionais que possam ensinar a esgrima, entregar para as escolas, e aí sim, tornar mais acessível não só em produtos privados. Eu acho que isso está acontecendo. É um caminho longo que está começando agora”, afirma.
Já Daniel Biscola, treinador de atletismo paralímpico, acredita que as Olimpíadas Rio 2016 trouxeram uma mudança cultural, ajudando a popularizar a categoria. “Houve uma grande alteração no esporte paralímpico, de entender os atletas como atletas de alto rendimento, das equipes tentarem se organizar melhor”, comenta.
Apesar dos benefícios da Rio 2016, que evidenciou a evolução brasileira no quadro de medalhas e trouxe mais visibilidade para esportes não tão populares no Brasil, o país ainda não tem uma cultura esportiva solidificada. Isso porque muitos esportes ficam em evidência durante a Olimpíada, porém, após o fim da competição, acabam no esquecimento e há pouca ação das instituições para fazê-los parte da rotina dos brasileiros. Para João da Barreira, atleta de atletismo com barreiras, o problema encontra-se justamente no fato de que a preocupação em trazer medalhas olímpicas é maior do que a de consolidar a prática esportiva diversificada no país.
“A medalha é uma mentira. Ela conta uma história que na realidade é outra. Por exemplo, para você ter três medalhistas de ouro no país, você precisa ter três medalhistas de ouro. Não precisa ter um projeto, uma ideia, você não precisa ter o país respirando o esporte.”
Daniel Biscola, treinador de atletismo paralímpico. Foto: Daniel Biscola/@danielbiscola
Apesar dos benefícios da Rio 2016, que evidenciou a evolução brasileira no quadro de medalhas e trouxe mais visibilidade para esportes não tão populares no Brasil, o país ainda não tem uma cultura esportiva solidificada. Isso porque muitos esportes ficam em evidência durante a Olimpíada, porém, após o fim da competição, acabam no esquecimento e há pouca ação das instituições para fazê-los parte da rotina dos brasileiros. Para João da Barreira, atleta de atletismo com barreiras, o problema encontra-se justamente no fato de que a preocupação em trazer medalhas olímpicas é maior do que a de consolidar a prática esportiva diversificada no país.
“A medalha é uma mentira. Ela conta uma história que na realidade é outra. Por exemplo, para você ter três medalhistas de ouro no país, você precisa ter três medalhistas de ouro. Não precisa ter um projeto, uma ideia, você não precisa ter o país respirando o esporte.”
Este caminho, de fato, parece longo. Levando em conta um levantamento feito pelo Ministério da Cidadania e reportado pelo jornalista Demétrio Vecchioli, publicado no Olhar Olímpico do UOL, quase metade das escolas de educação básica do país não tem nenhum espaço para os alunos praticarem esporte, o caminho realmente será difícil.
Pensando nisso, o COB criou em 2018 uma área que se chama Desenvolvimento Esportivo e Ciências do Esporte. De acordo com Conde, o objetivo é “dar condições para que os jovens possam fazer a transição para o esporte de alto rendimento adulto”, mas ressalta: “A questão da iniciação esportiva, do projeto social de base, realmente são atribuições de outros entes. Eu diria o Ministério do Esporte, que foi desfeito durante o governo federal passado, clubes, associações esportivas… o COB não tem nem a pretensão e nem a vocação de trabalhar o atleta ali desde a iniciação esportiva”.
Nota-se que o esporte de base e de iniciação no Brasil está órfão. O desenvolvimento de atletas, muitas vezes, está nas mãos de bons trabalhos em prefeituras, projetos sociais, do próprio esforço do atleta e até de patrocinadores, mas não de um projeto de desenvolvimento esportivo e cultural do país.
Esporte e audiência
Ainda com a problemática de uma ausência de cultura esportiva no Brasil, há em diversos setores da sociedade o interesse em acompanhar outros esportes, e isso se faz de diferentes formas. A série Drive to Survive (Netflix), por exemplo, ajudou a elevar a audiência da Fórmula 1 em mais de 58% após seu lançamento. É claro que o entretenimento não é a fórmula mágica para atrair mais público e que nem sempre vai dar certo, mas essa é apenas uma das fórmulas.
O Grupo Globo, por exemplo, atingiu ótimos números com as Olimpíadas de Tóquio realizadas em 2021. Os números foram de fato ‘inflacionados’ por conta da quarentena, mas a emissora viu a audiência de seus principais canais cresceram absurdamente. No streaming, o salto foi de 827%. Na TV aberta, recordes de audiência com vôlei e futebol. Na TV fechada, liderança tripla com seus três canais do SporTV.
Os Jogos Pan-Americanos de 2023 ficaram sem transmissão na TV aberta do Brasil. Entre negociações para lá e para cá, os direitos de transmissão ficaram apenas com a CazéTV nas plataformas digitais, uma parceria entre a produtora LiveMode e o streamer Casimiro Miguel, que dividiu sua poderosa audiência com o canal oficial do Time Brasil no YouTube.

A popular CazéTV, em parceria com o Time Brasil, conseguiu os direitos para transmitir os Jogos Pan-Americanos 2023. Foto: Divulgação/COB
Para Guilherme Costa, é impossível saber se os esportes olímpicos não dão audiência porque não são transmitidos ou não são transmitidos porque não dão audiência – um eterno paradoxo. Porém, a audiência é possível de ser alcançada, aos poucos, acostumando o público, algo pouco praticado pelas emissoras.
“É muito difícil você sair do zero de um esporte, precisa ter muita paciência, porque no começo nunca vai dar audiência, aí você tem que aguentar não dar audiência, só que tem um problema, porque [se] não dá audiência, não dá dinheiro, [se] não dá dinheiro, você não consegue se manter [...] Eu acho que daria audiência, se a gente mostrar toda semana uma competição legal de judô ou de esgrima, daqui há dois ou três anos o público vai falar ‘pô, esse esporte eu vou acompanhar’, aí você cria uma fidelidade, mas são dois anos capengando.”
Entre números de audiência e a falta de um projeto amplo e integrado de base e desenvolvimento, o Brasil segue como um país emergente no esporte. Há público para acompanhar durante um curto período olímpico, mas não há público para acompanhar todo o ciclo. O desafio é justamente este: cativar e fidelizar cada vez mais brasileiros como amantes do esporte. Com isso, é impossível não pensar…Será que o Brasil um dia será o país do esporte olímpico?



